domingo, 1 de fevereiro de 2026

O CORPO FALA

 

Quando fiz faculdade de Arte uma professora indicou um livro para ler valendo nota: “O CORPO FALA”, de Pierre Weil e Roland Tompakow, o qual me deixou intrigado desde as primeiras páginas. Com isso tornou-se mais fácil fazer a leitura das intenções das pessoas, independente do que estavam falando.

O corpo nunca está neutro. Antes mesmo da palavra, ele já disse algo. A posição que ocupamos no espaço — como apoiamos o peso, para onde cai a cintura, como o tronco se inclina — emite mensagens inconscientes de força, tensão, domínio ou entrega. O corpo fala o tempo todo, mesmo quando não queremos dizer nada.

Um dos gestos mais eloquentes dessa linguagem corporal é o gingado, o requebro, a leve queda da cintura para um dos lados. Esse deslocamento do eixo não é descuido: é afirmação. Quando o corpo abandona a rigidez simétrica, ele assume presença. Ele ocupa o espaço com confiança.

Andei notando recentemente, dirigindo no trânsito, a imensa quantidade de motocicletas circulando e na sua direção a grande quantidade tambem de performances sobre duas rodas. Alguns demonstrando grandes habilidades fazendo curvas a direita e a esquerdas, melhor ainda, alguns fazem sinuosidades em ruas em linha reta, talvez por treino ou mesmo pelo prazer de brincar em cima do veículo.

Talvez reflexo de leituras ou de olhar figuras no dia anterior ao ver o ziguezaguear de um motociclista ao ir para o ateliê, 

lembrei-me da figura poderosa do “David” de Michelangelo. Comecei a tecer relações entre as duas coisas, ou seja, o xingado do motoqueiro e a posição de tensão e relaxamento ao mesmo tempo do “David”, ou seja, de um lado relaxado e do outro pronto para agir, fazendo do desequilíbrio corporal um reequilíbrio.

Observei bem que ao inclinar a cintura para um lado o motociclista inclina o tronco para o outro, tal qual a escultura. Esse gingado, fazendo a leitura corporal, pensando no livro..., produz a sensação no individuo de Poder. Pensando bem o que nos seduz no David e essa sensação de poder e serenidade que a escultura nos revela. O corpo do herói não está rígido nem frontal. Ele se apoia mais em uma perna, enquanto a outra relaxa. A cintura cai levemente para um lado, o tronco responde com um contrapeso sutil, e o olhar se projeta para o momento que ainda vai acontecer: o lançamento da pedra contra Golias. Esse desequilíbrio calculado — conhecido como contrapposto — transforma o corpo em tensão viva. É poder contido, consciência de força, domínio de si antes da ação.

Esse mesmo princípio reaparece, de outra forma, na cultura urbana contemporânea, especialmente na figura dos motoqueiros. A moto não é apenas um meio de transporte: ela é uma extensão do corpo. Ao conduzi-la, o piloto precisa gingar junto com a máquina. O vai e volta pelas ruas, as curvas feitas com o corpo inclinado, a cintura acompanhando o movimento criam um requebro contínuo, quase coreográfico. Talvez os motociclistas sintam isso ao fazer suas danças curvilíneas pelas ruas. Sintam-se momentaneamente poderosos, livrando-se da rotina tensa de trabalho. Talvez haja alguma ligação tambem como expressão de poder as motociatas, pelo fato da motocicletas passar essas sensações aos aficionados.

Aliado a isso, vem tambem, o ronco do motor, acionando o punho em volta do acelerador seguidamente, fazendo-se ouvir e ser notado imediatamente, novamente o Poder.  Quando o poder quer ser percebido, ele fala alto, sobrepondo-se ao som à toda sua volta. O som impõe presença, marca território, exige atenção. Empinar a motocicleta então, é orgasmico para essa sensação de poder, ou seja, “vou por cima”.

Enfim, o corpo sempre fala, as vezes perigosamente.