Quando
fiz faculdade de Arte uma professora indicou um livro para ler valendo nota: “O CORPO FALA”, de Pierre Weil e Roland Tompakow, o qual me deixou intrigado desde as primeiras páginas. Com isso tornou-se mais fácil fazer a leitura das intenções das pessoas, independente do que
estavam falando.
O
corpo nunca está neutro. Antes mesmo da palavra, ele já disse algo. A posição
que ocupamos no espaço — como apoiamos o peso, para onde cai a cintura, como o
tronco se inclina — emite mensagens inconscientes de força, tensão, domínio ou
entrega. O corpo fala o tempo todo, mesmo quando não queremos dizer nada.
Um
dos gestos mais eloquentes dessa linguagem corporal é o gingado, o requebro, a
leve queda da cintura para um dos lados. Esse deslocamento do eixo não é
descuido: é afirmação. Quando o corpo abandona a rigidez simétrica, ele assume
presença. Ele ocupa o espaço com confiança.
Andei
notando recentemente, dirigindo no trânsito, a imensa quantidade de motocicletas
circulando e na sua direção a grande quantidade tambem de performances sobre
duas rodas. Alguns demonstrando grandes habilidades fazendo curvas a direita e
a esquerdas, melhor ainda, alguns fazem sinuosidades em ruas em linha reta,
talvez por treino ou mesmo pelo prazer de brincar em cima do veículo.
Talvez reflexo de leituras ou de olhar figuras no dia anterior ao ver o ziguezaguear de um motociclista ao ir para o ateliê,
lembrei-me da figura poderosa do “David” de Michelangelo. Comecei a tecer relações entre as duas coisas, ou seja, o xingado do motoqueiro e a posição de tensão e relaxamento ao mesmo tempo do “David”, ou seja, de um lado relaxado e do outro pronto para agir, fazendo do desequilíbrio corporal um reequilíbrio.
Esse
mesmo princípio reaparece, de outra forma, na cultura urbana contemporânea,
especialmente na figura dos motoqueiros. A moto não é apenas um meio de
transporte: ela é uma extensão do corpo. Ao conduzi-la, o piloto precisa gingar
junto com a máquina. O vai e volta pelas ruas, as curvas feitas com o corpo
inclinado, a cintura acompanhando o movimento criam um requebro contínuo, quase
coreográfico. Talvez os motociclistas sintam isso ao fazer suas danças
curvilíneas pelas ruas. Sintam-se momentaneamente poderosos, livrando-se da
rotina tensa de trabalho. Talvez haja alguma ligação tambem como expressão de
poder as motociatas, pelo fato da motocicletas passar essas sensações aos
aficionados.
Aliado
a isso, vem tambem, o ronco do motor, acionando o punho em volta do acelerador
seguidamente, fazendo-se ouvir e ser notado imediatamente, novamente o
Poder. Quando o poder quer ser
percebido, ele fala alto, sobrepondo-se ao som à toda sua volta. O som impõe
presença, marca território, exige atenção. Empinar a motocicleta então, é
orgasmico para essa sensação de poder, ou seja, “vou por cima”.
Enfim,
o corpo sempre fala, as vezes perigosamente.