segunda-feira, 2 de julho de 2012

Artistas da sobrevivência, no Renascimento Italiano

Para quem pensa que existiu só artistas do cacife de Leonardo, Miguelangelo e Rafael no Renascimento, se enganam. Eis o que nos conta Peter Burke em seu livro "O Renascimento Italiano":
Giovanni Caroto
"Em alguns poucos casos, artistas e escritores tinham ocupações um tanto surpreendentes, para não dizer bizarras. O pintor Mariotto Albertinelli foi durante uma Época, estalajadeiro (assim como Jan Steen, na Leiden do século XVII). O pintor Niccolo dell'Abbate, assim como os humanistas Platina e Calcagnini, foi soldado. Outro pintor, Giorgio Schiavone, vendia sal e queijo. O sócio de Giorgione, Catena, parece ter sido vendedor de drogas e especiarias, e Giovanni Caroto de Verona possuía uma farmácia; essa combinação de arte e drogas pode ser explicada pelo fato de algumas farmácias venderem materiais artísticos. Os irmãos Fogolino combinavam seu trabalho de pintores com o de espiões para os venezianos em Trento. Antonio Squarcialupi tinha um açougue alem de tocar orgao e ser compo­sitor; Domenico Burchiello era barbeiro além de poeta cômico. Mariano Taccola era notário além de escultor e engenheiro. Os dramaturgos Giovanni Maria Cecchi e Anton Francesco Grazzini eram respectivamente comerciante de lã e farmacêutico. Essas ocupações são um alerta para que não atribuamos uma condição social elevada demais aos artistas e escritores do Renascimento."

 
Mariotto Albertinelli
Giorgio Schiavone
Domenico Burchiello
   
Antonio Squarcialupi
Jan Steen


Jan Steen é um capitulo a parte, pois não pertence ao Renascimento Italiano, mas de Leiden, Holanda, já período Barroco, século XVI, enquadrando-se no estilo de Pintura de Gênero. Pintor que descreve as muitas de suas historias certamente vivenciadas em sua taberna, com muitas cenas de embriagues e mesmo orgíacas. Seu cachorro sempre assistiu a tudo pacientemente sem saber o que estava acontecendo, como aparece em quase todas suas obras.

segunda-feira, 9 de abril de 2012

SUBJACTO

Subjacto

Teve um período na arte abstrata desenvolvido nos Estados Unidos na década de 40 do século XX, com o movimento Action Painting, sendo Jackson Pollock seu principal representante. Ao aplicar a tinta na tela os artistas se concentravam no gestual, usavam de diversos meios, diferentes do convencional, derramavam, gotejavam e até mesmo pincelavam, sendo o objetivo mais importante deixar registrado os gestos pictóricos, os sinais e marcas do próprio artista naquele momento da elaboração da obra. Os gestos poderiam ser resultantes de momentos de raiva, de calma, ternura, etc. Feito com as vísceras enfim.
Ao abastecer o carro aos sábados, após dar ateliê em cidade vizinha, encerrando assim a semana de trabalho, ganhava um banho de espuma na lataria e vidros ao encher o tanque. Permanecia dentro do mesmo enquanto recebia o trato do lado de fora. Com minha câmera fotográfica em mãos ia registrando cada momento. Na tela-para-brisa do automóvel surgiam varias telas abstratas instantâneas, mas graças a esse grande invento humano, a fotografia, consegui guardar as inúmeras obras que ali surgiram. A riqueza de formas, linhas, cores que desfilava a minha frente fazia-me viajar. Ao descarregar as fotos em casa tinha grandes surpresas, vendo surgir todo um universo abstrato, diferente, lembrando muitas vezes um mundo alienígena. E de fato ao colocar numa determinada ordem sugere uma viagem intergaláctica.


EM EXPOSIÇÃO NO ESPAÇO CULTURAL BAUHAUS ATE DIA 16 DE ABRIL 2012, EXPOSIÇÃO "INDISCRIÇÕES DO OLHAR" DE MIGUE ANGELO E GRUPO YES ARTE COM RELEITURA DA FILME AMARCOD DE FELLINI

domingo, 1 de abril de 2012

Fim da Arte Abstrata

Modelo real
Pintura na tela













                                             




                                                                                                     


                                                                                                                    
 “Suco e elixir da criatividade ou "Fim da Arte Abstrata”
Primeiramente tornei abstrato alguns objetos que rodeiam-me diariamente. Caixinha de suco, de leite, copo de requeijão, garrafas vazias, etc.
Não quis dizer que os fiz sumir, não é isso. Pintei-os como a um quadro abstrato, estilo “borra-tela”, jogando tintas de varias cores sobre eles  criando um efeito vivo.
Montando então, um cenário com esses materiais, colocando duas telas abstratas junto a eles, uma como mesa para assentá-los e outra como fundo (parede), pintadas da mesma maneira que os objetos,  criei assim uma Natureza Morta abstrata real. Credo! Que contraditório!
Mas não acabou ainda. Não dando por satisfeito pinto na tela esse modelo abstrato de maneira abstrata-figurativa. Entenderam? Ver a foto acima que vai ajudar a entender.
Dessa maneira posso decretar o fim da Arte Abstrata
E também da Arte Figurativa
...quanta pretensão!
Mas que tentei, tentei!

EM EXIBIÇÃO NO ESPAÇO CULTURAL DA ESCOLA BAUHAUS ATÉ DIA 16 DE ABRIL 2012 - RUA MARIANA JUNQUEIRA 623 - CENTRO - RIBEIRÃO PRETO - SP

sábado, 24 de março de 2012

INDISCRIÇÕES DO OLHAR - releitura visual do filme AMARCORD de Fellini

AMARCORD

A escolha de Amarcord para fazer uma releitura visual-conceitual foi motivada pela grande extensão de questionamentos humanos que o filme faz. A maneira italiana de encarar a vida esta muito enraizado no nosso modus vivendi, faz com que pensemos em nos mesmos. A infância, a família, a escola, a velhice, a politica, as brincadeiras, as festas, as mulheres, etc. A convivência em família e sociedade são vistos por Fellini de maneira jocosa, mas será que é só isso?  O ângulo focado por Fellini é a própria caricatura, a realidade é assim. O que nos mobiliza? Nossos anseios, nossas fraquezas, nossos instintos latentes por detrás do jogo das relações? A realidade é assim, não é esse repertorio de boas intenções que fundaram em nos pela educação que recebemos. Nossos impulsos, nossa vísceras em grande parte se impõe a nossa razão.
A maneira inédita também de Fellini fazer o roteiro do filme, onde a ordem cronológica é desprezada em virtude da ordem caótica da memória, que vai buscando no passado aleatoriamente as recordações no enredar das situações ou de acordo com o prazer do momento de quem esta recordando.
As várias cenas guardadas em sua memória transformadas em filme, são um misto do insólito do dia a dia dessa alma latina, que coloca as emoções a frente da logica e das convenções criadas pelos homens misturadas com fantasia, ou seja, a vontade desse mesmo homem de escapar dessa realidade crua, transformando-a em algo mais poético. Cenas como a do cego que toca incansavelmente  seu acordeom transformando-se numa maquina de gorjeios; do tio que sai do sanatório e vai com a família dar uma volta no sitio e não sai mais de cima da arvore pedindo por uma mulher; a perseguida Gradisca, uma balzaquiana de curvas perfeitas;  o nono quando sai à porta de casa numa manhã de forte nevoa, dando-se por perdido após poucos passos da porta de sua casa, fazendo-se sentir no mais absoluto nada: “nem gente, nem arvores, nem, pássaros, nem vinho!”, ao passar alguém pergunta desesperado: “onde estou”, o qual responde “na porta de sua casa” - A vida as vezes é essa nevoa e perguntamos onde estamos e o que estamos fazendo aqui, nos sentindo num vazio absoluto, fazendo-nos questionar nossas vidas. E muitas outras cenas que, de certa maneira, nos servem de espelho ao puxar nosso fio de recordações.

A proposta de releitura do filme foi feita para o grupo formado pelo Atelie Miguel Ângelo, que adotou o nome de YES ART e que nessa exposição apresentam trabalhos de Semiramis Rocha, Sonia Albulquerque, Francesco Segneri e Miguel Angelo.

Em exposição no Espaço Cultural Bauhaus a partir do dia 29 de março.
Rua Mariana Junqueira, 623 - Centro- Ribeirão Preto -SP







INDISCRIÇÕES DO OLHAR - de 29 de março a 16 de abril - Espaço Cultural Bauhaus

A proposta desta exposição é a de levar, ao publico apreciador de arte, obras que foram criadas tendo como origem um processo de criação diferenciado, onde o acaso e o espontâneo estão presentes, intercorrente de varias situações inusitadas, transformadas em obras que propõem a recriação de conceitos, que ora questiona a forma, ora o pensamento, ora os objetos, o estado da matéria, e o próprio fazer artístico brincando com conceitos da História da Arte. Muitas vezes a ideia da criação acontece por associação de materiais, do cruzamento de conceitos, da ironia de situações. Não tem como objeto primeiro a pintura de cavalete, podendo até ser usada a técnica, auxiliando na estruturação da ideia, mas sendo a ideia em si o principal. Seguindo no mesmo olhar e atitude criativa as demais mídias apresentadas na exposição. Essa exposição é frutos de pesquisas permanentes que nosso fazer artístico diário provoca. 

terça-feira, 3 de janeiro de 2012

PROPICIAR O ALIMENTO E A FECUNDIDADE

Inicio de ano. Desejos mútuos de prosperidade, etc, leva-me a pensar quão antigo isso é. Quantas ações e acessórios nos investimos para propiciar-nos um futuro melhor, ou seja no caso, o ano vindouro, ou melhor ainda, o ano novo que já estamos. A ideia de magia sempre fascinou o ser humano, desde os tempos mais remotos. Os amuletos, as imagens e os rituais propiciatórios são tão antigos quanto a humanidade. Começar com o pé direito, usar roupa branca, são tantas formas de celebrar. Tudo é valido para propiciar. Como por exemplo faziam os homens da pré-história. Para propiciar a caça, para não faltar o alimento mais importante, a carne, que tal um quadro de um bisão na salão principal da caverna?
Será o que isso representa hoje em dia? O São Benedito na cozinha? Ou quem sabe aquela cestinha de cereais que adornam os cantos das copas e cozinhas?

Como também uma estatueta da matrona da tribo, grávida, as chamadas "Vênus Esteatopígicas", poderá propiciar novos membros para a família humana em formação?
Como um amuleto para propiciar a fecundidade.


                   
      Vênus Willindorf                              Vênus  de Laussel                          Vênus de Lespugue   


Nota: Nomeadas Vênus por serem o ideal de beleza de época, pois a beleza era o que significavam por estarem gravidas. Foram encontradas muitas estatuetas pelos quatro cantos do continente Europeu.
  
Como consciente coletivo do paleolítico a ideia de prosperidade se materializou na ideia de fecundidade, pois sendo maior a raça humana, maior seu poder sobre a natureza  e isso representa maior segurança entre seus membros, por conseguinte menos medo para enfrentar a vida, gerando mais conforto nessa terra hostil e selvagem de nossos ancestrais pré-históricos.
A Lua, a grande “loba”, que engravidava todas as mulheres nas noites de lua cheia. A noção de fecundação através do coito como temos hoje em dia não existia nesses remotos tempos do paleolítico. Pois o clarão das noites de lua cheia atrapalhava o sono de nossa aldeia primitiva, tornando mais hábeis em seus ataques o lobo e os animais noturnos vorazes por carne humana . Então o que há de se fazer? Muito facil!: Festa na aldeia! Rituais propiciatórios com direito a dança e muito sexo que acontecia espontaneamente. Mas quem fecundava era a lua, entenderam? Pois as mulheres logo apareciam com os sintomas de gestantes. Ai valeu o ritual, foi alcançado o objetivo. O amuleto guardado dentro de seu abrigo natural ajudou muito.Viva a lua (cheia)
Texto de Miguel Angelo Barbosa
(se usar esse texto colocar os créditos do autor)

domingo, 4 de dezembro de 2011

Pintura indireta / Claro-escuro / Barroco

"O incrédulo São Tomé" de Caravaggio
A relação entre claros e escuros nos remete ao período da Historia da Arte do período Barroco, onde os artistas para atenderem aos pedidos da Contra-Reforma precisavam criar obras que impressionavam o expectador levando-o a uma santa comoção. Para tanto era montado toda uma cenografia em seus estúdio para engenhar suas obra. Aliás, há historiadores que atribuem o inicio da Arte Cenográfica nesse período. O que podemos constatar na obra de  Caravaggio e Rembrandt van Rijn, entre outros.
Judite Decapitando Holofernes - Caravaggio
"Abraham e Isaac"de Rembrandt
 "Elevação da Cruz"de Rembrandt
Observem acima que os olhares dos personagens não cruzam com a cena, estão mirando fora do foco, isso demonstra que os modelos eram pintados individualmente


O uso do alto contraste: claro-escuro, foi muito oportuno pelos artistas, pois além de criar uma atmosfera emocional no resultado final do quadro, em muito ajudavam aos artistas na elaboração de seu trabalho. Apesar de terem à disposição os modelos de sua cena pictórica, esses não precisavam estar o tempo todo presentes, podendo alternarem-se de acordo com a necessidade. 

Os retratos coletivos como “A Ronda Noturna”, "Aula de Anatomia", também desenvolveram-se assim. Sendo que na fixação do desenho inicial faziam todas as marcações dos campos de luz e sombra, o que facilitava muito a execução posterior da obra, sem precisar o modelo estar presente o tempo todo. Pois, a luz artificial do estúdio, fixa e focada no modelo em muito ajudava a criar esses campos de claro e escuro. o que os historiadores da arte deram o nome de pintura indireta, ou seja sem a presença direta do modelo. A obra era realizada em varias seções de pintura; tinta fresca sobre tinta seca; tinta "gorda" sobre tinta "magra"

Aula de Anatomia

A ronda noturna
 Os Síndicos das Guildas
Vemos uma tentativa de mudança da técnica em Frans Hals, onde percebemos pinceladas mais alla prima, ou seja, uma camada de tinta era aplicado sobre a outra antes de secar. Passando então, a uma maneira direta de pintar, ou seja, com o modelo presente no  estúdio para terminar o retrato numa unica seção. Mas somente em meados do  século XIX essa técnica se consagra, tornando-se uma escola, a Impressionista, onde os artista trabalham fora do estúdio com a luz natural mutante.





Observe a marca das pinceladas mais evidente nos retratos de Frans Hals


Texto de Miguel Angelo Barbosa
Se usá-lo colocar os créditos 

Mostra do Acervo - Laboratório das Artes - abertura 03 de dezembro

quinta-feira, 3 de novembro de 2011

Coleta fotografica da exposição "Em nome dos Artistas" prédio da Bienal 2011

Apropriações e acontecimentos fotográficos ocorridos durante a visita a exposição "EM NOME DOS ARTISTA". Coleção Astrup Feanley


Em sala da oficina da exposição, de repente na mesa de areia achei pronto, uau! a folha do "Educativo" com a foto de Cindy Sherman - Sem Titulo nº 32, click! o sorriso estava antes da objetiva! 

O que era só dela passou  a ter um pouco de mim, ou seja, da sorte de eu estar na hora certa, no lugar certo, e o principal, com a "CÂMARA"
Explicando melhor: 
Na foto original não tem a fumaça do cigarro, a areia que caiu na folha da foto deu a ilusão de fumaça, aliás o cigarro ainda não estava aceso
Que tal: Vamos tocar a sombra!!!
Acho melhor pisarmos na grama! 
Oras! Também deve ser proibido....!



Entrada para sala do vídeo "Fervor" de Shirin Neshat


Esta acabando o filme, passando os créditos


 Disputa fálica no piso. Deve ser resíduos de outras Bienais


Mídia da mídia 

Quem esta olhando quem?
"As meninas" de Velasques deixa essa pergunta


Precisamos acertar o passo, afinal! É pra lá?


Maravilhosa arquitetura escultural moderna de Niemeyer impera sobre tudo, ou melhor valoriza tudo que é colocado ali dentro.




Espectador passivo

domingo, 11 de setembro de 2011

XXXVI semana de Portinari


Resultados da pintura mural em Brodowsqui



 Este abaixo trabalhado só pelo Francesco Segneri

























domingo, 28 de agosto de 2011

Palestra sobre Arte Italiana no saguão do Teatro Municipal



Na 6ª Festitália,  promovida pela Sociedade Dante Aligheri em parceria com a Secretaria de Cultura de Ribeirão Preto, nos dias 21, 22 e 23 no Alto do Morro de São Bento, fizemos uma palestra aberta ao publico sobra Arte Italiana. Foi abordada a técnica de pintura de Leonardo da Vinci. Onde demonstramos através de uma leitura de suas obras inacabadas a sequencia de elaboração de suas obras. Desvendando sua técnica e processo criativo
Em nosso ateliê os alunos vão a fundo na aprendizagem das mais variadas técnicas consagradas da Arte da Pintura que vão desde a pintura acadêmica até as escolas das vanguardas modernas e ainda os processos criativos da arte contemporânea

domingo, 14 de agosto de 2011

"Rememorando" - Série "R'eu"




 A pintura partiu do original abaixo em desenho de nanquim e acrílica sobre papelão reciclado, Chama-se a serie "R'eu" por partir sempre de uma outra obra pronta em desenho.


Um brinde a Arte!





quarta-feira, 15 de junho de 2011

Museu do Vaticano


Mármore na saída do Museu do Vaticano, será que alguns Et's plasmaram sua imagem ali?

quarta-feira, 1 de junho de 2011

Wood Sculptures - Loris Marazzi em Veneza



Até 31 de agosto na Associação Cultural Amigos da Arte em Veneza
O artista esculpe roupas em madeiras, nos dando a ilusão que são verdadeiras e não esculturas, ou melhor são esculturas de verdade.

quinta-feira, 26 de maio de 2011

Francis Bacon Grafiteiro

Na saida da Galeria Uffizi em Florença tive a surpresa de encontrar pintado nos tapumes de restauração externa do museu esse grafite. Achei genial! Um grafite a lá Francis Bacon.

domingo, 1 de maio de 2011

EDUCAÇÃO DE-FORMADORA


Ensinar arte para adultos nos ensina muito sobre a criança que cada um carrega em si. E ensinar arte para crianças nos ensina muito o que, nunca, deveríamos aprender para ser adulto. Ensinar arte para adolescentes nos ensina o que exatamente devemos frear com o aprendizado e o que devemos estimular na percepção.
Estou querendo dizer que aprendemos tudo errado. Depois de muitos anos dando aulas no ateliê, percebo o quanto os adultos ficam travados na criatividade e no impulso de experimentar e na capacidade de perceber, enriquecendo os sentimentos e a sensibilidade qualificando desta forma o universo cognitivo. A educação civilizatória castradora dos adultos é a barbarização de nossa essência humana.
A educação oficial que se vê por aí no ensino de Arte, transforma crianças criativas e sensíveis em adultos inseguros, medrosos e sem expressão.
Quantas vezes, eu presenciei a iniciação artística no ateliê e vejo que os adultos chegam com concepções erradas sobre arte, mas o pior é que são concepções passadas pela Escola e muitas vezes pelos pais, que confunde na formação dos alunos, como o ideal da Arte é a ideia de elaboração, de bonitinho, de arrumadinho, bem acabado. Mas arte não é elaboração externa, é elaboração interna a qual nos aperfeiçoa e nos forma sentido do e no mundo e nas coisas que vivenciamos.
Certa vez fui convidado a ser júri de um salão de arte em uma cidadezinha que mantinha forte, ainda, suas tradições que vinham do homem do campo, do cortador de cana, enfim, sua formação rural. Esta cidade tinha por tradição artistas naifs, muitos ficaram bem conhecidos, famosa pelos seus artistas bóias-fria.
O salão se dividia em setores: adultos, jovens e crianças. As premiações deviam, também, atender a esta ordem. Éramos três jurados, e foram bem harmônicas e convergentes nossas escolhas, os critérios de seleção foram coesos e bastante satisfatórios.
No dia da abertura, eis a surpresa que acontece: fazendo-me presente no coquetel, fui procurado, então, por uma professora que se sentia injustiçada, pelos seus alunos que estavam participando. Pois, os trabalhos que foram premiados eram muito inferiores aos de seus pupilos. Se eu poderia dar alguma explicação do que ocorreu.
Topei a parada e lá fui eu para a “inquisição”. Eram diversos trabalhos de vários de seus alunos. Lá estavam eles: realmente bem acabados, bem emoldurados, bem elaborados e só. A idéia de cada trabalho ficava até em segunda plano obscurecida pela técnica quase impecável na execução dos mesmos. Foi ótimo para mim o ocorrido, pois verifiquei com isto o que aconteceu no Ensino de Arte. Os quadros pareciam algo próximo de “feitos por uma mesma pessoa”. E, foram feitos mesmos, de uma maneira indireta, pela batuta da professora, mas confeccionados pelos alunos. Fui mostrando as semelhanças para a professora: uma determinada forma em um, se repetia no outro, as cores eram sempre matizes dos mesmos matizes e para as mesmas situações de figuração, como por exemplo o céu, a terra, etc, sempre iguais na cor e na concepção, e fechando o assunto olhei as molduras eram todas iguais, não que tivesse importância isso, mas serviu para ver o grau de semelhança plástica entre os quadros. Ela foi obrigada a reconhecer e revelar: isto é normal, pois eles fizeram na classe juntos. E...sabe como é: um pergunta para o outro, um olha o do outro. Mas pode ver que as idéias são diferentes, cada um é cada um. Disse-lhe, de volta, que o que importava no julgamento era a criatividade e não o acabamento bem feito, e que a parte de expressão estava ofuscada por essa outra parte. Mostrando-me, então um premiado indagou: Como este pode ser premiado se a perspectiva esta errada, a pintura esta borrada, fora dos contornos do desenho tremido, e com falhas de pinceladas?
Ao que respondi: De fato, portanto o artista se expressou como conseguiu, como pôde, pôs suas idéias para fora sozinho e sem interferências. E deixa-nos intrigados quando olhamos o quadro. A perspectiva está errada mesmo, mas é como ele intuiu e não como alguém disse para fazer, assim ou assado. É o limite da capacidade técnica de sua idade. Não viemos para julgar o bonito e arrumadinho, mas o mais criativo e expressivo.
A professora pareceu aceitar meus argumentos e nos despedimos. Passei um último olhar na exposição e confirmei o acerto da premiação, inclusive da ala adulta que, para nossa surpresa quando chegou à exposição era uma senhora com Síndrome de Down, da cidade de Batatais, e o 1º premio em dinheiro, o que iria ajudar muito a instituição onde era cuidada, a APAE daquela cidade.
No meio de tantas telas acadêmicas, bem elaboradas, bem emolduradas, mas sem nenhuma criatividade, temáticas de sempre se repetiam: vasos com flores, natureza morta, paisagens, ou modernosos abstratos. O quadro vencedor foi atípico: um auto-retrato da artista que se representou de corpo inteiro pintando uma tela dentro do quadro. Tudo na mais total desproporção. Muito expressivo e criativo apesar da pouca técnica.
Fiquei pensando muito nisso tudo na viajem de volta. Será que estaria fazendo a apologia da falta de técnica, do amadorismo? A valorização do errado? Qual errado? Qual o certo? Ou seria a valorização da expressão legítima, da percepção individual, sem as barreiras da razão e da técnica?
Ao chegar em casa escrevi uma frase num caderno de anotações: “Todo adulto quer transformar uma criança em seu grau de adulteração” Fiquei pensando muito na educação formal, nos conceitos que são seguidos pela escola e na pedagogia institucionalizada como escola.
Fiquei pensando na professora e na certeza que ela tinha de estar fazendo o melhor e o mais certo. Como estava fazendo de fato, dentro do pensamento estabelecido na sociedade. No entanto, nada mais fazia do que formatar aquelas crianças para ter a visão, o pensamento e as vontades dos adultos. Dando-lhe apenas pré-requisitos para o desenvolvimento da linguagem oral, escrita e lógica. Não artística. Quando se sai da linguagem padrão e lógica, racional, não é mais aceito pelo mundo dos adultos.
Fiquei pensando no valor exagerado que é dado na sociedade para o desenvolvimento do lado esquerdo do cérebro, no valor do pensamento lógico, no Apolíneo e o Dionisíaco de Nietzsche, na metafísica Socrática, no mundo das verdades absolutas de Platão, e para fechar toda reflexão, nas declarações de Picasso em seus últimos anos de vida, que perseguia em cada nova obra a forma de expressão pura como a de uma criança. Chegando a conclusão de que quanta mentira inventaram para a humanidade para o fortalecimento do “poder” dos poderosos, no sentido mais darwiniano do termo.
Mas isto é outra história: o importante nessa minha investigação é desvendar os mitos criados e institucionalizados em nome da educação e civilidade do homem, ou seja - A formação de adultos inseguros, confusos e sem criatividade. 


Obs: Se usar esse texto colocar a autoria : Miguel Angelo Barbosa

terça-feira, 26 de abril de 2011

Olhar de Ancião


Olhar de Ancião

Os ritmos da natureza
O ciclo do existir
O tempo corrosivo a todos os sonhos
O caminhar da vida
Avançando pelos horizontes

A ultima estância
Onde recostado a alta montanha
Se avista com o olhar da memória
As paisagens vencidas com suor, coragem e obstinação
Inerentes ao pulsar das veias da vida
O nobre entardecer da existência
Se descerra sobre a bravura do tempo de cada um
Assim somos e sempre seremos

Obra e poema produzido no Ano Internacional do Idoso (1999) para exposição temática no SESC - Ribeirão Preto, na mesma data.
Jogos de opostos nos dois eixos do quadro.
Os dois rostos se miram de cada lado da tela, formando no espaço negativo uma ampulheta simbólica entre as silhuetas e nesta, uma paisagem, onde em cima esta o céu (leveza, infância, juventude) em baixo a terra, (peso, velhice, tempo passado) como acontece de fato nas ampulhetas, a areia desce, marcando o tempo, quando toda pra baixo faz-se a a verificação do tempo decorrido. Entre os dois o sol (o fogo da vida), se pondo no horizonte, ou seja, sobre nossas andanças na terra.
O efeito da face do ancião foi feito com pasta acrílica e betume. O betume é uma resina fossil, que precisa do fator tempo para se formar. Na mesma face tem efeitos de bronze, que um metal usado para se fundir esculturas de bustos, efígies, etc, de grandes personagem, para homenageá-los.
Após muito tempo com essa obra no ateliê, um dia dando aula em Brodowsqui no Museu Casa de Portinari, tive como aluna a presidente do Clube da 3ª Idade, achei interessante ofertá-la em doação, pois ficaria no lugar certo. Foi aceito.
Passando pela terra de Candinho esses dias encontrei o Clube e lá estava a obra na parede, fiquei feliz de revê-la, não tinha nem sequer uma foto, tirando esta que publico agora.
(achado em meus guardados)